O imbróglio em torno do recorde do carro mais rápido do mundo e do SSC Tuatara, o novo e alegado detentor do título, ganhou novos contornos.
Em resumo, nos últimos dias o vídeo que documentava o recorde do Tuatara foi sujeito a uma análise minuciosa, que colocou em causa a concretização do feito: 508,73 km/h de velocidade média e um máximo de 532,93 km/h. Estes números superariam claramente os do Koenigsegg Agera RS, até então titular do recorde.
As questões suscitadas são legítimas. Entre elas estão as diferenças entre a velocidade indicada pelo GPS sobreposto às imagens e a velocidade a que o Tuatara realmente circulava, bem como as relações de caixa e de diferencial, conhecidas publicamente, que aparentemente impediriam que estas velocidades fossem alcançadas.
SSC North America responde às dúvidas
Por fim, a SSC North America respondeu a quase todas as questões levantadas pelas análises detalhadas, através de uma longa declaração do seu fundador e presidente, Jerod Shelby.
A declaração original, agora traduzida integralmente, encontra-se no final deste artigo. Antes disso, destacamos os principais pontos apresentados para justificar as discrepâncias e que, na perspetiva da SSC North America, esclarecem as dúvidas.
Em primeiro lugar, para o principal responsável da SSC, não existe qualquer dúvida quanto à obtenção do recorde. O Tuatara recorreu a vários instrumentos e sensores da Dewetron, que terão medido rigorosamente a velocidade do hipercarro, acompanhada por uma média de 15 satélites nas duas passagens.
Contudo, num comunicado oficial separado, a Dewetron declarou que não validou quaisquer dados deste teste e que nenhum representante da empresa esteve presente no local da realização. Por isso, a empresa não pode, para já, assegurar que os instrumentos e sensores estivessem devidamente calibrados, nem confirmar que os dados - aos quais ainda não teve acesso - sejam os mais rigorosos e/ou corretos. No final, sublinha:
Em segundo lugar, está o próprio vídeo. Porque existe uma diferença tão grande entre a velocidade verdadeira do automóvel e a indicada pelo GPS nas imagens?
Segundo Jerod Shelby, ocorreram erros durante a edição. O próprio admite que foi uma falha não terem revisto cuidadosamente todo o material antes de o publicar e divulgar mundialmente.
Por exemplo, foram divulgados dois vídeos diferentes filmados no habitáculo: um pela Top Gear e outro pela própria SSC, juntamente com a Driven+. Isto aumentou as discrepâncias e as dúvidas, uma vez que a informação visível não coincidia entre os dois vídeos.
Ainda assim, as justificações avançadas não explicam porque razão o SSC Tuatara percorre uma determinada distância entre dois pontos de referência a uma velocidade inferior àquela que surge registada. Terá sido divulgado o vídeo da passagem errada? Sabe-se que foram feitas várias tentativas, todas registadas em vídeo.
Jerod Shelby afirma que irão divulgar, assim que possível, as imagens da tentativa em que o Tuatara atingiu as velocidades anunciadas, na sua forma mais simples. Resta aguardar.
A outra grande questão respondida por Jerod Shelby diz respeito às especificações do SSC Tuatara, em particular às relações de diferencial e de caixa. E, surpreendentemente, estas não coincidem com as originalmente anunciadas: o comunicado refere-se à versão Modelo de Velocidade Máxima, desconhecendo-se anteriormente a existência de diferentes versões.
Deste modo, a relação final, ou diferencial, é de 2,92, mais longa do que os 3,167 conhecidos publicamente. As duas últimas relações da caixa, a 6.ª e a 7.ª, também são ligeiramente mais longas do que as divulgadas antes: 0,757 na 6.ª, em vez de 0,784, e 0,625 na 7.ª, face aos anteriores 0,675.
Como resultado, os 532,93 km/h passam a ser teoricamente possíveis em 6.ª velocidade, a relação utilizada na obtenção do recorde, cuja velocidade máxima teórica é de 536,5 km/h às 8800 rpm, o regime máximo do motor.
O que aprendemos sobre o SSC Tuatara?
Em primeiro lugar, que o vídeo estava efetivamente incorreto, algo que ajuda a justificar quase todas as discrepâncias.
Em segundo, que as especificações do Tuatara utilizado no teste diferiam ligeiramente das que eram do conhecimento público, permitindo, em teoria, atingir as velocidades declaradas no recorde.
As explicações da Shelby SuperCars North America eliminam todas as dúvidas? Ainda não. Será necessário esperar por um novo vídeo e pela verificação dos dados de GPS antes de celebrar o Tuatara como o carro mais rápido do mundo. Não há dúvida de que tem potencial para o ser; falta agora confirmá-lo para além de qualquer dúvida razoável.
O comunicado oficial da SSC North America, na íntegra
Jerod Shelby explica o recorde mundial
A 10 de outubro de 2020, a SSC North America concretizou um sonho com uma década de existência, quando o nosso hipercarro Tuatara alcançou uma velocidade máxima média de 316.11 MPH.
Desde então, tem havido uma enorme onda de interesse e especulação sobre como e se o Tuatara atingiu essa velocidade.
A boa notícia: conseguimos, e os números estão efetivamente do nosso lado.
A má notícia: só depois dos acontecimentos percebemos que a representação em vídeo da tentativa de velocidade estava substancialmente incorreta.
O que se segue é uma explicação detalhada sobre o que aconteceu e como aconteceu, tanto quanto sabemos neste momento. Espero que ajude a reforçar a confiança na equipa da SSC e no feito excecional conquistado pelo Tuatara.
O vídeo
Há três anos, a SSC começou a trabalhar com a Driven Studios, uma equipa de vídeo encarregada de documentar praticamente todos os momentos do hipercarro Tuatara e das pessoas que o criaram.
Desde então, entrevistaram praticamente todos os membros da equipa e consultores, registaram o automóvel durante a construção e ao longo de extensivos testes, além de terem desempenhado um papel essencial não apenas na captação, mas também na produção da tentativa de recorde de 10 de outubro, em Pahrump, Nevada. Tornaram-se um parceiro de confiança da família SSC.
No grande dia, 10 de outubro, havia câmaras de vídeo por todo o lado: no habitáculo, no solo e até fixadas num helicóptero e num T33 a voar a baixa altitude, para captar o automóvel em velocidade.
Na manhã da tentativa, o recorde foi alcançado e estávamos eufóricos. Mantivemos a notícia sob embargo até 19 de outubro, na esperança de divulgar um vídeo juntamente com o comunicado de imprensa.
A 19 de outubro, dia em que a notícia foi tornada pública, pensávamos que tinham sido divulgados dois vídeos: um gravado no habitáculo, com os dados da tentativa de velocidade sobrepostos, e outro com imagens suplementares do automóvel em andamento. O vídeo do habitáculo foi partilhado com a Top Gear, bem como nas páginas de YouTube da SSC e da Driven+.
Por alguma razão, ocorreu uma troca durante a edição, e lamento admitir que a equipa da SSC não verificou duas vezes a precisão do vídeo antes de este ser divulgado. Também não tínhamos percebido que existiam, e foram partilhados com o mundo, não um, mas dois vídeos distintos do habitáculo.
Os fãs de hipercarros rapidamente denunciaram a situação, e não respondemos de imediato porque não tínhamos percebido as inconsistências: foram partilhados dois vídeos, ambos com informação incorreta. Não era essa a nossa intenção. Tal como eu, o responsável da equipa de produção não identificou inicialmente estes problemas e recorreu a parceiros técnicos para determinar a origem da inconsistência.
Numa primeira análise, parece que os vídeos divulgados diferem no ponto em que os editores sobrepuseram o registador de dados, que apresenta a velocidade, em relação à posição do automóvel no percurso. Essa diferença nos pontos de sincronização explica os registos divergentes da tentativa.
Embora nunca tenhamos pretendido que o vídeo captado tivesse o papel de legitimar a tentativa, lamentamos que os vídeos divulgados não fossem uma representação rigorosa do que aconteceu a 10 de outubro.
A Driven Studios possui imagens extensas de tudo o que ocorreu e está a trabalhar com a SSC para divulgar as imagens reais na sua forma mais simples. Iremos partilhá-las assim que estiverem disponíveis.
O automóvel
No dia da tentativa de velocidade, a SSC utilizou equipamento da Dewetron para acompanhar o Tuatara e confirmar a sua velocidade, medida através de uma média de 15 satélites nas duas passagens. Escolhemos a Dewetron pela sofisticação do seu equipamento, cuja utilização nos deu confiança na precisão da velocidade medida do automóvel.
Foram solicitados detalhes adicionais que não tínhamos fornecido nos materiais de imprensa anteriores, e essas especificações técnicas estão indicadas abaixo:
Especificações técnicas do Tuatara (Modelo de Velocidade Máxima)
Relações/velocidade, utilizando a relação final de 2.92
Relações de caixa/velocidade máxima (as velocidades 1-6 têm limite de rotação de 8,800 RPM)
1.ª velocidade: 3.133 / 80.56 MPH
2.ª velocidade: 2.100 / 120.18 MPH
3.ª velocidade: 1.520 / 166.04 MPH
4.ª velocidade: 1.172 / 215.34 MPH
5.ª velocidade: .941 / 268.21 MPH
6.ª velocidade: .757 / 333.4 MPH @8800 *
7.ª velocidade: .625 / 353.33 MPH (máximo estimado @7,700RPM em 7.ª velocidade - concebida sobretudo como uma relação de sobremultiplicação para condução em autoestrada)
- Para referência: validações cruzadas do registo de dados -
Oliver circula a 236mph quando passa de 5.ª para 6.ª às 7,700RPM, o que corresponde quase exatamente aos dados das relações de caixa, e aproximou-se do limite da 6.ª, atingindo 331.1 MPH às 8,600 RPM, o que acompanha o nosso valor teórico de 333.4mph @ 8800 RPM.
Especificações aerodinâmicas:
O arrasto passa de 0.279 para 0.314 a 311mph (500kph)
O automóvel produz aproximadamente 770lbs de força descendente a 311mph
Foi calculado que o automóvel necessita de 1,473HP para atingir 311mph (500kph)
Para calcular a potência necessária, foram considerados os seguintes pressupostos:
- O coeficiente de resistência ao rolamento dos pneus foi obtido junto do fabricante, Michelin Pilot Sport Cup 2, com classe energética declarada: E.
- A eficiência total da transmissão, da cambota até à roda, foi definida em 94%.
- A densidade do ar foi definida em 1,205 kg/m3, valor encontrado a 20°C ao nível do mar.
- A massa do veículo foi definida em 1474 kg = 1384 kg de peso em vazio + 90 kg do condutor.
Pneus:
Michelin Pilot Sport Cup 2
Diâmetro/circunferência do pneu traseiro: 345/30ZR20
Pressão normal de utilização = 35psi
88.5” de circunferência
28.185” de diâmetro
PRESSÃO UTILIZADA NO RECORDE MUNDIAL = 49psi
89.125” de circunferência
28.38” de diâmetro
Como foi medida a velocidade
A equipa da SSC recebeu um equipamento Dewetron para utilizar na tentativa de velocidade. A formação da equipa da SSC para operar o equipamento foi feita remotamente, devido à COVID.
O equipamento Dewetron inclui sensores instalados no veículo, que acompanharam uma média de 15 satélites durante a tentativa de velocidade máxima do Tuatara.
Dois observadores independentes, sem qualquer ligação à SSC ou à Dewetron, estiveram no local para acompanhar as velocidades medidas pelo equipamento Dewetron. A SSC pretende apresentar ao Guinness provas do que esses observadores viram no equipamento Dewetron, para verificação.
A 22 de outubro, a Dewetron enviou uma carta à SSC a confirmar a precisão do equipamento e do sensor de velocidade fornecidos à SSC, e essa carta será igualmente submetida ao Guinness como parte da candidatura ao recorde mundial de velocidade máxima.
Como passo adicional, a SSC está a submeter o equipamento Dewetron e o sensor de velocidade a análises adicionais e à verificação da precisão desse equipamento.
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