É fácil apontar o maior defeito do Renault 4 E-Tech Plein Sud: o seu preço.
Ainda assim, também se percebe rapidamente porque é que, mesmo custando mais, esta será provavelmente a versão do Renault 4 mais desejável. O Plein Sud é uma proposta sem equivalente no mercado, e a Renault está consciente disso. Essa exclusividade tem um custo. Nada a apontar. Até porque esta variante não se resume a esse atributo.
O Renault 4 já é uma presença familiar, pelo que importa centrar a atenção no que torna esta versão diferente. À primeira vista, o teto em lona poderá parecer um simples pormenor, mas altera de forma relevante a experiência ao volante. Não melhora a aceleração, não aumenta a autonomia nem acrescenta funcionalidade. Em compensação, oferece algo potencialmente mais valioso: prazer de condução.
A referência é o clássico Renault 4 Plein Air, a versão descapotável produzida entre 1969 e 1974, numa altura em que a simplicidade, a liberdade de utilização e uma certa vocação aventureira eram argumentos importantes do modelo francês.
Mais de 50 anos depois, a Renault recupera esse conceito sem converter o novo Renault 4 num descapotável propriamente dito. A solução escolhida foi muito mais descomplicada: um amplo teto de abrir elétrico em lona.
O que muda?
Visualmente, o Renault 4 E-Tech Plein Sud é quase indistinguível das restantes variantes da gama. E isso é positivo. Em vez de procurar reinventar um modelo que depende muito da sua imagem, a Renault adicionou apenas um elemento que acentua um dos seus principais trunfos: o charme.
A diferença essencial encontra-se, literalmente, acima dos ocupantes. O teto elétrico em lona abre até 92 cm de comprimento e, ao contrário do que sucede num descapotável tradicional, preserva praticamente toda a estrutura da carroçaria. Não implica ainda compromissos relevantes em matéria de conforto ou de utilização quotidiana.
No habitáculo, as alterações face aos restantes Renault 4 E-Tech são praticamente inexistentes. Conservam-se o desenho, o conjunto de dois ecrãs de 10″ e as mesmas dimensões interiores, que não foram afetadas pela instalação do teto em lona.
O Plein Sud mantém igualmente uma arquitetura mais funcional do que a do Renault 5 E-Tech, proporcionando maior espaço para os passageiros e para a carga. A capacidade da bagageira situa-se entre 375 litros e 1149 litros, um valor mais do que adequado para uma «escapadinha» de fim de semana em família.
O teto que muda tudo
É natural olhar para o teto em lona do Renault 4 E-Tech Plein Sud e assumir que se trata de pouco mais do que um recurso estético. No entanto, bastam poucos quilómetros para concluir que a realidade é diferente.
Ao abrir o teto, o ambiente no interior altera-se de forma clara. Entra mais luz, aumenta o contacto com o exterior e até uma viagem rotineira passa a ter outro encanto. A diferença é particularmente evidente em cidade e em estradas secundárias, onde a vontade é de o manter aberto sempre que as condições meteorológicas o permitem.
Mesmo com o teto recolhido, o Renault 4 não se torna desconfortável. O defletor instalado na zona dianteira do tejadilho controla eficazmente a turbulência e o ruído aerodinâmico, tornando possível percorrer vários quilómetros sem sentir necessidade de voltar a fechá-lo.
Mais relevante ainda é que, ao fechá-lo, quase deixa de se notar a sua presença. Até em autoestrada, o isolamento acústico continua a destacar-se no Renault 4, sendo pequenas as diferenças relativamente às versões equipadas com tejadilho convencional.
Continua a ser um Renault 4 como os outros
Apesar de tudo o que o teto em lona acrescenta à utilização, por baixo dele está o mesmo Renault 4 que já conhecíamos. O Plein Sud é comercializado exclusivamente com a bateria de 52 kWh e o motor elétrico mais potente da gama, que debita 110 kW (150 cv) e 245 Nm de binário.
São especificações mais do que adequadas para assegurar boas prestações, embora sem transformar o R4 numa proposta de carácter desportivo. O foco continua a estar no conforto, na facilidade de utilização e, acima de tudo, na eficiência.
Também neste ponto continua a convencer. A Renault homologa 15,7 kWh/100 km, mas nos dias em que o utilizei foi perfeitamente comum obter consumos inferiores a 14 kWh/100 km, sem prescindir do ar condicionado e incluindo algumas deslocações em autoestrada.
Comparado com as restantes versões, o Plein Sud acrescenta 19 kg ao peso, uma diferença pouco expressiva que nem sequer exigiu alterações estruturais. A autonomia homologada fica nos 395 km (WLTP), menos sete quilómetros do que nas variantes convencionais.
Na prática, esses sete quilómetros têm pouca relevância. A eficiência elevada permite recuperá-los com facilidade em utilização real, e continuam disponíveis vários níveis de regeneração, bem como o modo One-Pedal Drive.
O problema chamado preço
Chegamos, assim, ao aspecto mais difícil de justificar. O Renault 4 E-Tech Plein Sud está disponível apenas nos níveis de equipamento Techno e Iconic, os dois mais completos da gama.
Ao valor de 1800 euros pelo teto em lona, soma-se uma configuração de base já muito bem equipada. O resultado é um preço de 37 040 euros para o Techno e de 39 040 euros para o Iconic.
É neste ponto que a escolha se torna mais complicada. Não necessariamente porque 1800 euros seja um preço exagerado pelo teto em lona, mas porque o valor final coloca este SUV elétrico do segmento B num patamar onde já existem propostas maiores, com maior autonomia e argumentos racionais mais sólidos. O próprio Renault Megane, na mais recente atualização, anuncia 500 km de autonomia por montantes semelhantes:
No mesmo segmento e por preços próximos, há modelos como o FIAT 600e, que também aposta na componente emocional, bem como opções mais racionais e acessíveis, como o BYD Atto 2 e o Citroën ë-C3 Aircross. Contudo, nenhum oferece este teto. E nenhum reproduz exactamente a mesma combinação de imagem, personalidade e ligação ao passado.
Por isso, defender o Renault 4 Plein Sud com uma calculadora é difícil, mas fazê-lo depois de o conduzir é bastante mais simples. Se a decisão fosse tomada exclusivamente pela razão, provavelmente pouparia os 1800 euros. Após alguns dias ao volante, essa certeza já não é a mesma. Não dispor de garagem poderá ser o factor decisivo.
É caro, mantém uma autonomia de apenas 395 km e não faz nada que um Renault 4 convencional não consiga fazer. Mas é precisamente esta variante que melhor compreende o que um Renault 4 também deve representar: um automóvel simples, distinto e com alguma vontade de não levar tudo demasiado a sério.
É, por isso, o Renault 4 que mais apetece comprar. Num mercado repleto de automóveis tão semelhantes, este distingue-se da forma certa.
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