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Mercedes-Benz EQC 4×4²: o Terminator elétrico dos trilhos

SUV Mercedes-Benz elétrico cinza escuro EQC 4X4S com pneus off-road, estacionado em interior moderno com janelas grandes.

O Mercedes-Benz EQC 4×4² assenta em eixos especiais que lhe dão capacidade para ultrapassar praticamente qualquer obstáculo que surja no percurso. É uma espécie de Terminator sob a forma de um SUV.

A eletromobilidade costuma estar associada à procura de mais alguns quilómetros de autonomia com a mesma carga de bateria, incentivando uma condução bastante ponderada. Certo? Bem… na maioria dos casos, sim, mas o protótipo Mercedes-Benz EQC 4×4² deita por terra essa ideia preconcebida: as gigantescas rodas, montadas em eixos especiais de tipo pórtico, dão-lhe o aspeto de uma criatura monstruosa, com voracidade suficiente para devorar pequenos smart indefesos ao pequeno-almoço.

“Chamamos-lhe EQnator” (de EQC + Terminator), brinca Hendrik Loos, um dos engenheiros da reduzida equipa responsável pelo desenvolvimento. E não descarta a hipótese de este 4×4 de aparência ciborgue poder ser chamado por um produtor de cinema para protagonizar um eventual novo capítulo - o sétimo, nesse caso - da conhecida saga, cujo último episódio estreou no final de 2019.

Mercedes-Benz EQC 4×4² imparável!

Este protótipo foi criado para demonstrar as capacidades dos veículos elétricos de todo o terreno e usa como ponto de partida o EQC 400 4Matic, como se este tivesse passado por uma intensa dieta de esteroides anabolizantes que lhe engrossou os “membros inferiores”. A chave está nos eixos pórticos: o eixo principal fica acima do centro da roda e, na extremidade, na ligação à roda, existe uma caixa de engrenagens.

Ao elevar o eixo e a caixa do diferencial, a distância ao solo aumenta de forma muito significativa, chegando aqui aos 29,3 cm. Trata-se de mais do dobro do valor de um EQC convencional e de mais 5,8 cm do que um Mercedes-Benz Classe G, considerado por muitos o grande ícone dos veículos todo o terreno.

A comparação das aptidões fora de estrada com as de um EQC normal revela diferenças muito expressivas: os ângulos de ataque e saída passam de 20º para mais de 30º, o ângulo ventral sobe para mais do dobro, de 11,6º para 24,2º, e a capacidade de passagem a vau cresce de 250 mm para 400 mm. Em todos estes parâmetros, supera igualmente o Classe G.

Um EQC “em pontas”

Apesar de poder parecer uma alteração simples, a concretização exigiu bastante engenho. Desde os primeiros momentos do projeto, ficou decidido que seriam utilizados eixos pórticos, o que obrigava a elevar substancialmente o eixo na respetiva ligação à roda. A Mercedes podia ter recorrido aos componentes usados para converter o Classe G no G500 4×4², outro membro desta família - o EQC 4×4² é o terceiro, depois do Classe E All Terrain 4×4 - apresentado no início de 2016 e produzido numa pequena série.

Contudo, o eixo do G500 não tinha dimensão compatível com o EQC. A resposta passou por recorrer ao chassis do Classe E All-Terrain 4×4 e adaptá-lo ao EQC, alargando as cavas das rodas em 10 cm de cada lado, também para acomodar as jantes de 20”.

Como explica Juergen Ebeler, responsável pela direção do projeto, “este transplante obrigou a procurar algumas soluções rebuscadas como a da colocação de um motor elétrico no lugar do diferencial no eixo traseiro. Para isso, foi também necessário usar um sub-chassis e triângulos de suspensão distintos para que a suspensão pneumática original, com uma afinação um pouco mais seca, coubesse”. Na dianteira, as modificações foram mais contidas e pouco ultrapassaram um reajuste da cinemática do eixo.

Os modos de condução Offroad são os mesmos do GLC, mas foram adicionados dois, perfazendo sete no total. Um deles destina-se a pisos m-e-s-m-o exigentes e recebeu o nome Offroad Plus, embora todos tenham sido recalibrados para disponibilizar mais binário nos arranques em terrenos soltos. O novo programa Offroad introduz ainda um mapeamento diferente do acelerador para ocasiões em que é necessário controlar o avanço do SUV “com pinças”, por vezes a velocidades inferiores à marcha de uma pessoa.

O sistema de propulsão mantém-se inalterado: integra dois motores elétricos, um por eixo, cada qual com 204 cv e 380 Nm, resultando numa potência combinada de 408 cv e 760 Nm. A alimentação é assegurada pela mesma bateria de 80 kWh de capacidade utilizável, instalada no piso entre os eixos.

O pesado acumulador de energia acaba mesmo por favorecer a utilização deste todo o terreno em trilhos particularmente difíceis. Além de baixar o centro de gravidade, a bateria conta com proteções que dispensam as habituais blindagens suplementares destinadas ao motor e à caixa de velocidades neste tipo de veículos. A inexistência de um conjunto volumoso de motor e transmissão contribui também para reduzir o diâmetro de viragem.

Outra característica do EQC 4×4² é conseguir ter uma presença sonora tão intimidante quanto o seu visual. Nas cavidades destinadas aos faróis dianteiros foram instalados altifalantes que reproduzem um som ajustado ao movimento do veículo, em função do modo de condução selecionado e de fatores como a posição do acelerador, a velocidade e o nível de recuperação de energia. Esse som chega igualmente ao habitáculo deste automóvel com que a Mercedes-Benz pretende conquistar o mundo sem limites: para isso, dispõe de uma tenda no tejadilho e até de um pequeno bote insuflável, permitindo prosseguir viagem quando já não houver terreno firme, ou quase firme, pela frente.

Ao infinito e mais além? Sim e não…

Perante tanto equipamento, seria fácil concluir que a autonomia é o principal entrave a uma aventura de conquista do mundo. Dos 414 km anunciados para o EQC normal, poderá restar pouco mais de metade em utilização TT intensa. Ou seja, tudo é possível, desde que o fim do mundo fique… perto de casa.

O contacto com esta “fera” decorreu numa pedreira repleta de “armadilhas”, entre rochas pontiagudas, crateras profundas e montes de areia semelhantes a dunas. O EQC 4×4² superou quase sempre estes obstáculos sem sequer “se despentear”.

É certo que não existem redutoras, mas os 760 Nm de binário “instantâneos” - porque… elétricos -, os generosos cruzamentos de eixos, os ângulos TT e a muito elevada distância ao solo tornam desnecessária uma caixa de transferência. Também não há bloqueios de diferenciais, como os disponíveis num Classe G, por exemplo, mas o controlo de estabilidade através dos travões cumpre a função.

Entrar para o posto de condução deste EQC 4×4², cerca de 20 cm mais alto, revelou-se mais difícil do que vencer os desafios apresentados pelo terreno. O tablier é exatamente igual ao do EQC “normal”, mas as primeiras impressões em andamento não podiam ser mais distintas: tanto pela altura ao solo acrescida como pelo impressionante silêncio da propulsão elétrica, ainda mais marcante neste cenário “de guerra” do que num elétrico conduzido no asfalto. O esforço claramente audível dos motores para libertar um veículo TT de obstáculos mais difíceis desaparece aqui, substituído por um silêncio tranquilizador… e pelos sons das pedras a embater na parte inferior do SUV ou da areia esmagada pelas jantes de 20”.

A Mercedes-Benz não prevê fabricar em série este EQC 4×4² de aparência mutante, embora a recentemente anunciada submarca G possa vir a beneficiar de diversos componentes desenvolvidos pela pequena equipa de engenheiros que aproveitou os tempos livres para concretizar o projeto.

Entre os potenciais beneficiários está o Classe G 100% elétrico, um dos modelos mais aguardados pelos muitos admiradores do icónico 4×4 de linhas quadradas. Num futuro não muito distante, terá pela frente outro símbolo do todo o terreno sobre rodas: o igualmente anguloso Hummer elétrico, cuja chegada ao mercado estava prevista para 2021. Uma autêntica batalha de Terminators em perspetiva…

Autores: Joaquim Oliveira/Press-Inform.

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